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Tapeçaria contemporânea é artesanato ou arte?

  • Ana Gonçalves
  • 30 de dez. de 2025
  • 3 min de leitura

Tapeçaria contemporânea é artesanato ou arte?

Durante muito tempo, a tapeçaria esteve associada ao universo do artesanato, da decoração ou do fazer utilitário. Tapetes, painéis têxteis e bordados eram vistos principalmente como objetos funcionais ou ornamentais, ligados à tradição e à repetição de padrões.


Nos últimos anos, porém, a tapeçaria passou a ocupar outro lugar. Ela aparece em exposições, galerias, museus e coleções de arte contemporânea, desafiando classificações rígidas e abrindo novas perguntas: afinal, a tapeçaria contemporânea é artesanato ou arte? Onde termina uma coisa e começa a outra?


Este texto propõe um olhar cuidadoso sobre essa questão, entendendo a tapeçaria contemporânea como uma linguagem que atravessa fronteiras e se constrói no encontro entre técnica, processo e criação autoral.


Artesanato e arte: uma separação histórica


A distinção entre arte e artesanato não é natural nem neutra. Ela foi construída historicamente, especialmente a partir do século XIX, quando o fazer manual passou a ser hierarquizado: de um lado, a arte associada à ideia de genialidade, autoria e originalidade; de outro, o artesanato ligado à função, à tradição e ao saber coletivo.


Nesse contexto, práticas têxteis como o bordado e a tapeçaria foram frequentemente classificadas como artesanais, muitas vezes desvalorizadas por estarem associadas ao trabalho manual, ao feminino e ao cotidiano doméstico.


Essa separação rígida, no entanto, começa a se dissolver quando olhamos para a produção contemporânea, onde o processo, o gesto e o tempo voltam a ocupar um lugar central na arte.


O que muda na tapeçaria contemporânea?


A tapeçaria contemporânea não se define apenas pela técnica utilizada, mas principalmente pela forma como essa técnica é acionada.


Diferente da tapeçaria tradicional, que muitas vezes segue padrões fixos e funções pré-determinadas, a tapeçaria contemporânea se constrói como pesquisa. O fazer manual deixa de ser apenas meio e passa a ser parte do conceito da obra.


O tempo do bordado, a repetição do gesto, a resistência do material e até mesmo o erro tornam-se elementos constitutivos da linguagem. Não se trata mais de reproduzir modelos, mas de investigar possibilidades formais, sensoriais e poéticas a partir do têxtil.


Tapeçaria contemporânea como linguagem artística


Na arte contemporânea, a tapeçaria ocupa hoje um campo expandido. Ela dialoga com questões como corpo, tempo, memória, trabalho manual e materialidade, aproximando-se de outras linguagens artísticas sem perder sua especificidade.


Quando a tapeçaria se afirma como linguagem artística, ela não abandona o saber técnico — ao contrário, o incorpora de forma consciente e crítica. A técnica deixa de ser um fim em si mesma e passa a servir à construção de sentido.


Nesse contexto, a pergunta “é arte ou artesanato?” perde força. A tapeçaria contemporânea se apresenta como uma prática híbrida, capaz de transitar entre campos e desafiar categorias tradicionais.


O papel do processo e do fazer manual


Um dos aspectos centrais da tapeçaria contemporânea é a valorização do processo. O tempo investido no fazer manual não é ocultado, mas revelado na obra final.


Cada ponto carrega o gesto de quem o executou. Cada variação de textura ou densidade evidencia a relação direta entre corpo e material. Esse processo lento e repetitivo se contrapõe à lógica da produção acelerada e industrial, propondo outra forma de relação com o tempo.


É justamente nesse lugar que a tapeçaria contemporânea se afasta tanto do artesanato utilitário quanto da ideia de arte como objeto distante, aproximando-se de uma prática sensível, presente e encarnada.


O olhar do Studio TAPPETO®


No Studio TAPPETO®, a tapeçaria contemporânea é entendida como um campo de pesquisa e criação autoral. O fazer manual não é visto como reprodução de uma tradição fixa, mas como um espaço de escuta, experimentação e construção de linguagem.


A técnica, os materiais naturais e o tempo do processo são tratados como elementos ativos da obra. Cada peça nasce do diálogo entre gesto, matéria e ritmo, respeitando a singularidade do trabalho manual e o percurso de cada criação.


Mais do que responder a uma classificação, a tapeçaria contemporânea se afirma, aqui, como um território de encontro entre saber técnico, pensamento artístico e experiência sensível.


Conclusão

A tapeçaria contemporânea não cabe facilmente nas categorias de arte ou artesanato.

Ela tenciona essas definições ao assumir o fazer manual como linguagem artística, sem abrir mão da técnica, do tempo e da materialidade.


Ao valorizar o processo e a criação autoral, a tapeçaria contemporânea propõe um outro modo de produzir e perceber a arte, mais atento, mais lento e profundamente ligado ao gesto humano.



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